Dia da Consciência Negra não deve ser apenas marco
Sociedade
A consciência negra não é para isolar o negro do Brasil. É para colocá-lo dentro do Brasil. A opinião é do professor José Roberto Silva, estudioso em Cultura Afro-Brasileira, sobre o Dia da Consciência Negra, que será celebrado em todo o País, em 20 de novembro. Para ele, as datas são apenas marcos, porque só funcionam depois de muitos anos de reflexão a respeito da atitude tomada. “Um exemplo disso foi a abolição dos escravos, que não ocorreu em função das necessidades do negro, e sim para atender os interesses comerciais europeus”, explicou. Segundo o professor, esse movimento deveria ter sido feito de maneira lenta e contínua, como foi proposto pelo abolicionista André Rebouças, já que havia negros que não tinham como voltar para a situação da África.
A data foi instituída por meio da lei nº 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira em todas as escolas do Ensino Fundamental e Médio. Mas nem sempre foi assim. Durante mais de três séculos, o negro não foi considerado gente, sendo o País o último judaico-cristão-ocidental a decretar o fim da escravidão. Para José Roberto, “as coisas têm de ser analisadas à luz das atitudes”. Segundo ele, o negro foi quem introduziu no Brasil a música e o movimento do corpo, vinculados à sua própria visão libertária de mundo. “Eles trouxeram tudo isso dentro das fibras musculares e da memória, e foram construindo aqui, adaptando e associando com a cultura de cada região”, explicou o professor.
A imagem da seção de palmatória sofrida por uma criança negra, bem como o próprio instrumento de tortura, chamam a atenção de quem visita o Museu do Negro, localizado na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, no Centro do Rio. Além de objetos do período da escravidão, podem ser vistas fotografias de abolicionistas como José do Patrocínio, Joaquim Nabuco e André Rebouças. Este propunha uma reforma agrária que permitisse aos negros plantarem e se transformarem em pequenos proprietários de terra, de acordo com José Roberto. “Com a abolição, tendo em vista os negros que aqui nasceram e, que por isso, desconheciam a situação africana, era inviável o retorno deles ao continente”, concluiu.
O Museu, tombado em 1938 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), está em péssimo estado de conservação. Na entrada do local já é possível avistar paredes infiltradas (foto). Mais à frente, parte do teto encontra-se comprometida, colocando em risco a vida dos visitantes e funcionários. A falta de profissionais qualificados e a de manutenção do acervo contribuem para o abandono do Museu, que está sob os cuidados da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos. Para o visitante Edson Ferreira, o espaço deveria aproximar as pessoas da realidade do negro. “Ele não é impactante, mostra a nossa cultura de modo superficial”.
De acordo com a antropóloga Andréa Lúcia Paiva, na publicação Museus, coleções e patrimônios: narrativas polifônicas, a Irmandade teria sido criada, no século XVII, pela união das confrarias de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito, constituídas por negros alforriados, ladinos e escravos. No início do século XVIII, segundo a antropóloga, os negros construíram a sua própria igreja, por meio de doações, na Rua da Vala (hoje Rua Uruguaiana). O objetivo era cultuar os padroeiros e enterrar os negros mortos. Após um incêndio, em 1967, os altares, as tribunas, o coro e os pilares da igreja foram reconstruídos. Conforme avaliou Paiva, o termo pobreza tem sido utilizado para designar a igreja antes e depois do acidente. Ela conta que o interior do templo era recoberto de ouro. Hoje, as paredes e tetos são pintados de branco.
A igreja foi duas vezes a sede do Senado da Câmara (entre 1809 e 1822; e de 1822 a 1825) e teve papel decisivo em momentos políticos importantes, como a participação na luta abolicionista. A informação é da jornalista Berenice Seara e consta no Guia de Roteiros do Rio Antigo. Ela também destaca “o papel igualmente importante dos negros da igreja na construção de um movimento festivo e cultural que é símbolo da cidade: o Carnaval”. Segundo Seara, na segunda metade do século XVIII, os membros obtiveram licença para realizar festividades. Elegiam, uma vez por ano, um rei e uma rainha, que desfilavam em cortejo público acompanhados de sua corte, formada por dançarinos e músicos que tocavam caxambus, pandeiros e ganzás, explicou a jornalista.
Desde fevereiro deste ano, a igreja passa por reformas especiais: substituição de telhas, revisão de todo o sistema de captação e escoamento de águas pluviais etc. Segundo o assessor de imprensa do Iphan, Chico Cereto, estão sendo utilizadas “verbas de natureza emergencial”, já que a Irmandade não dispõe de recursos financeiros. O que comprova a deterioração do Museu.
A solução para revitalização do espaço, apontada por Cereto, seria o financiamento privado. Esse poderia se dar, segundo ele, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, conhecida como Lei Rouanet. São concedidos incentivos fiscais às empresas patrocinadoras, que ganham visibilidade junto ao seu público por fomentarem a cultura nacional. Para isso, o assessor destacou, no entanto, a necessidade de o responsável pelo Museu fazer um projeto, que dependeria da aprovação do Ministério da Cultura.
Na opinião de José Roberto, como não havia a preocupação da Irmandade em preservar a memória do negro, eram mantidos apenas os ossos daqueles que eram vinculados a ela. Com o passar do tempo, foram incorporados objetos oriundos de doações. O que faz o professor concluir que a permanência do Museu pode estar com os dias contatos, até porque, segundo ele, falta interesse pela Cultura Afro-Brasileira.
Facha antecipa comemoração do Dia da Consciência Negra
O Núcleo Artístico e Cultural das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha) vai antecipar as comemorações do Dia da Consciência Negra. Em 24 de outubro, no Colégio Hélio Alonso, no Méier, de 9 às 14h, haverá apresentação do grupo de capoeira angola Ypiranga de Pastinha e palestra com o Mestre Manoel. Além disso, terá comidas típicas; maculelê (dança); artigos africanos, como esculturas e capulanas (tecidos) e artesanato. No dia 4 de novembro, será a vez da Facha, campus Botafogo, prestigiar o evento, que vai de 9 às 22h. O conteúdo da festividade será o mesmo.
Matérias - geral | Comments (2)2 Responses to “Dia da Consciência Negra não deve ser apenas marco”
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Olá Tássia ,
Muito bom o artigo , O Conteúdo está bem claro , em se tratando de uma matéria sintética , me paraceu ótima .
Parabéns , espero que as descobertas sobre o PAPEL DO NEGRO NO BRASIL , sejam sempre reveladoras e que voce possa propagar o quão valiosas são as nossas contribuições , para a formação do povo brasileiro .
Abraços.
EDSON
Fico muito feliz por ter gostado, Edson. =)
Obrigada pelo seu comentário!