“O que há de mais importante na Fiocruz” entrevista…
Na Fiocruz há 25 anos, o técnico em saúde pública Mineo Nakazawa atua na manutenção de diferentes cepas de T.cruzi, bem como na análise de drogas anti-tripanosomatidas, dentro do Serviço de Referência em doença de Chagas, do Departamento de Imunologia do Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães, no Recife.
Há quantos anos está na Fiocruz?
A minha admissão ocorreu em março de 1983, na função de auxiliar técnico de pesquisas, cargo exercido até abril de 1989. A partir de maio de 1989, exerci a função de técnico de pesquisas nível III. Atualmente, enquadro-me como técnico em saúde pública, nível III. Portanto, trabalho na FIOCRUZ há 25 anos.
Qual sua formação?
Sou graduado em Licenciatura Plena em Ciências Biológicas pela Universidade Federal Rural de Pernambuco e Mestre em Biofísica pela Universidade Federal de Pernambuco.
Como técnico do Departamento de Imunologia do CPqAM, quais atividades desempenha?
Sou técnico do Serviço de Referência em doença de Chagas. Como técnico do departamento, desenvolvo as seguintes atribuições: manutenção de diferentes cepas de T.cruzi “in vivo” e “in vitro”; manutenção de cultura de células; obtenção de tripomastigotas de cultura de células; execução e realização de técnicas imunobiológicas; análises de drogas anti-tripanosomatidas etc.
Quanto à prevenção da doença de Chagas, como andam as pesquisas referentes à vacinação?
Como o meu trabalho envolve mais as questões referentes às reações imunobiológicas, não me vejo capacitado para pronunciar sobre como andam as pesquisas referentes às vacinas. Mas, ao meu ver, a vacina contra o Mal de Chagas está distante de se concretizar mesmo porque, em vacina experimental observou-se que o organismo infectado pelo protozoário causador da moléstia produz anticorpos específicos contra ela e normalmente esse parasita dribla as defesas do organismo e induz a produção de anticorpos incapazes de neutralizar os agentes agressores. Com essa observação, podem se abrir novos caminhos para a busca de vacinas contra infecções parasitárias.
Dentre os seus trabalhos publicados no campo da saúde, qual gostaria de destacar?
Primeiramente, o Excretory-Secretory Antigens of Trypanosoma cruzi are Potentially Useful for Serodiagnosis of Chronic Chagas’Disease. Clinical and diagnostic laboratory immunology, v. 8, n. 5, p. 1024-1027, 2001. Em seguida, o trabalho Reactivity of sera from chronic chagasic patients against excretory-secretory antigens of different Tripanosoma cruzi srains. Apresentação oral no Simpósio Internacional sobre Avanços do Conhecimento da Doença de Chagas 90 Anos após a sua Descoberta. 1999.
O que representa a Fiocruz para você?
A FIOCRUZ representa para mim oportunidade de pesquisar em todos os sentidos, para todos que ingressem nela, porque é uma instituição onde todas as suas regionais têm o compromisso e a filosofia de serem uma FIOCRUZ maior.
Leia também esta entrevista no site da Direh.
Entrevistas na Fiocruz | Comments (0)“O que há de mais importante na Fiocruz” entrevista…
Desde 1995 na Fiocruz, Vera Machado trabalha no INCQS, unidade da Fiocruz que atua em áreas de ensino, de pesquisa e de tecnologias de laboratório relativas ao controle da qualidade de insumos, produtos, ambientes e serviços sujeitos à ação da Vigilância Sanitária.
Há quanto tempo está na Fiocruz?
Entrei na Fiocruz no final de 1995.
Qual sua formação?
Sou engenheira eletricista (especialidade em eletrônica).
Conte-nos um breve histórico de sua carreira profissional e atuação na Fundação.
Minha experiência anterior foi de 12 anos em manutenção de equipamentos de química analítica no Núcleo de Pesquisas de Produtos Naturais/UFRJ. Em 1995, entrei na Fundação para montar um laboratório de metrologia capaz de atender à demanda dos laboratórios do INCQS nas áreas de Massa (calibração de balanças), Volume e Massa Específica e Temperatura. O Instituto estava no início da implantação de seu Sistema de Qualidade. A partir do trabalho conjunto com o Ricardo Yañez (desde o começo), o laboratório se desenvolveu e em 2004 foi acreditado, passando a fazer parte da Rede Brasileira de Calibração do Inmetro. Em 2005, deixei o trabalho no Laboratório de Metrologia para me dedicar ao Sistema da Qualidade (o INCQS também faz parte da Rede Brasileira de Laboratórios de Ensaio do Inmetro – RBLE) e em março de 2008, assumi a Coordenação do Programa da Qualidade do INCQS.
O que é a Fiocruz para você?
Trabalhar na Fiocruz significou a possibilidade de lidar com a fronteira de diferentes áreas de conhecimento. O aprendizado com a metrologia física, da área de calibração, foi expandido para a metrologia química e biológica, ou seja, a aplicação de técnicas e conceitos matemáticos e estatísticos aos ensaios realizados nos laboratórios. Não posso deixar de mencionar que fui muito bem recebida no INCQS e que devo muito a todos aqueles que acreditaram no meu trabalho.
Veja esta entrevista no site da Direh.
Entrevistas na Fiocruz | Comments (0)Entrevista com senador Álvaro Dias
Em entrevista realizada pela CBTU, o senador Álvaro Dias, há 40 anos na política, fala sobre o setor metroferroviário brasileiro.
A carreira política do senador Álvaro Dias (PSDB-PR) se iniciou em 1968, quando tornou-se vereador em Londrina, Paraná. Logo após, foi eleito vice-presidente da Câmara Municipal e líder do MDB. Exerceu cargos de deputado estadual, deputado federal, governador e vice-líder do PMDB no Senado. Fundou o partido PST, do Paraná. Presidiu a Telepar (Telecomunicações do Paraná). Retornou ao Senado em 1999, em seu segundo mandato como senador. Atuou como presidente nas comissões parlamentares de inquérito – a CPI do Futebol e a CPMI da Terra – e também como membro titular das comissões parlamentares de inquérito dos bingos e dos Correios. Em 2006, foi reeleito senador e em 2007, eleito vice-presidente do Senado Federal, tendo recebido no mesmo ano, na Califórnia, o diploma de Doutor honoris causa em Administração Governamental (Doctor of Government Administration) pela Southern States University.
CBTU – A Cidade nos Trilhos: Qual a sua visão sobre o transporte urbano de passageiros nas cidades brasileiras?
Álvaro Dias: A estimativa é que circulam nas cidades brasileiras aproximadamente 115 mil ônibus, transportando algo em torno de 55 milhões de passageiros por dia. O Brasil reproduz em grande medida a situação caótica que se disseminou pelos sistemas de transporte nos países latino-americanos. Pagamos um preço alto pela opção feita no passado pelo transporte rodoviário. A qualidade de vida da população é bastante comprometida em razão das precárias condições do transporte nas grandes cidades. Infelizmente, nossas cidades dispõem ainda de poucas linhas de metrô. Acredito que privilegiar o transporte sobre trilhos seja uma medida urgente e necessária. É inconcebível continuarmos atrelados ao transporte sobre pneus nas regiões metropolitanas.
“O transporte público precisa ser alçado ao patamar de necessidade humana básica, sendo equiparado à habitação, saneamento, segurança, entre outras políticas públicas. Essa mudança de mentalidade é vital e representa um dos grandes desafios do gestor público”.
CBTU – A Cidade nos Trilhos: Quais as perspectivas e os desafios para o transporte de passageiros sobre trilhos nas cidades brasileiras, nos próximos anos?
Álvaro Dias: As redes metroviárias de inúmeras metrópoles do mundo constituem, de longa data, a base dos seus respectivos sistemas de transporte público. Nesse contexto, se faz necessário dotar nossas cidades de maior mobilidade e oferecer à sociedade brasileira os benefícios advindos a partir da adoção das referidas redes. Estamos falando de significativas reduções de tempo nos deslocamentos, de ruídos, poluição atmosférica, bem como na diminuição dos acidentes de trânsito, economia de combustíveis, sem falar nos aspectos de conforto, segurança e rapidez. O transporte público precisa ser alçado ao patamar de necessidade humana básica, sendo equiparado à habitação, saneamento, segurança, entre outras políticas públicas. Essa mudança de mentalidade é vital e representa um dos grandes desafios do gestor público.
“Acredito que privilegiar o transporte sobre trilhos seja uma medida urgente e necessária. É inconcebível continuarmos atrelados ao transporte sobre pneus nas regiões metropolitanas”.
CBTU – A Cidade nos Trilhos: O que falta para termos transportes sobre trilhos nas cidades brasileiras?
Álvaro Dias: Uma política permanente voltada ao financiamento do transporte urbano sobre trilhos seria um passo importante. Uma linha de crédito ampliada para a infra-estrutura metroviária, com envolvimento inclusive de organismos e entidades de fomento internacionais, sem dúvida, deveria ser mais bem articulada. Reproduzo a opinião de especialistas na matéria, os quais ressaltam que transportar passageiros sobre trilhos reflete e se traduz em poder estruturador sobre a própria economia dos centros urbanos. Além de mais econômico, é gerador, inclusive de benefícios sociais. O foco e a mentalidade precisam ser ‘reciclados’.
P.S.: Entrevista feita pela Assessoria de Comunicação da CBTU. Cabeça, título e revisão feitos por mim.
Entrevista com Joubert Flores
Em entrevista realizada pela CBTU, Joubert Flores, presidente da Comissão Metroferroviária da ANTP, analisa o transporte sobre trilhos brasileiro.
O diretor de Relações Institucionais e Recursos Humanos do Metrô-Rio, Joubert Fortes Flores Filho, na companhia desde 1974, exerceu os cargos de coordenador de Infra-Estrutura Eletromecânica e coordenador de Engenharia de Planejamento e Controle de Manutenção. É engenheiro eletricista, formado na UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, com MBA em Gerência de Energia, na Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas. Presidiu a ABRAMAN – Associação Brasileira de Manutenção e a FIM – Federação Íbero-Americana de Manutenção. É presidente da Comissão Metroferroviária da Associação Nacional de Transportes Públicos – ANTP. Joubert é, também, co-autor do livro “Gestão Estratégica – Indicadores de Desempenho”, da Coleção Manutenção.
CBTU – A Cidade nos Trilhos: Na sua visão, o que é preciso para se ter um transporte integrado nas metrópoles brasileiras?
Joubert Fortes: Eu acho que é uma questão de ter primeiro uma política definida de integração que, hoje, não tem. Nós aqui no Rio temos os troncos da Supervia e do Metrô e, ao mesmo tempo, devia-se ter sistemas de ônibus como alimentadores deles, mas acaba tendo os ônibus como concorrentes desses sistemas. Então, tem uma situação meio caótica. Primeiro tem de ser definida uma política. E segundo, numa metrópole que nem a nossa ou São Paulo, a questão não pode se restringir ao município, tem que envolver toda a região metropolitana porque muitas viagens não têm origem daqui do centro. As pessoas vêm de outros municípios, como Niterói, Nova Iguaçu. Então, a integração tem que envolver isso tudo, não é simplesmente o que está no município. É uma questão de definição de política e uma questão de organização da região metropolitana. A integração não é circunstancial.
“Mas hoje há consciência de que primeiro o transporte metroferroviário é, realmente, um transporte de massa. O ônibus não é transporte de massa, é um transporte coletivo. O investimento em transporte de massa é alto, mas ecologicamente correto”.
CBTU – A Cidade nos Trilhos: Como está a integração nas operadoras metroferroviárias brasileiras?
Joubert Fortes: Existem situações diferenciadas, pelo menos as que eu conheço. São Paulo com a instituição do bilhete único tem uma integração temporal entre vários modais que, aparentemente, funciona bem. Não sei se economicamente está solucionada, mas em termos de benefício para o usuário está. Não adianta também pensar que esse negócio não tem custo. Tem que ser equilibrado. Eu sei que Recife tem uma boa integração, mas acho que tem problema também na partição econômica de quanto cada modal tem direito. Aqui no Rio acho que evoluiu de 2002 para hoje, tanto o Metrô quanto a Supervia. O Metrô, além das nossas linhas, hoje opera com três linhas de integração, sendo duas para a Gávea e uma para a Barra, operadas por nós mesmos. E nós temos mais de 13 linhas que são integrações compartilhadas com empresas que já tinham a concessão. E tem quatro linhas de integração intermunicipal, que envolve a região metropolitana. Lógico que se pode fazer muito mais, mas primeiro depende da capacidade de deslocar as pessoas, e é isso que está se tentando investir. Estamos também tendo integração com a Supervia, que também está fazendo o mesmo processo com integração de linhas de ônibus. Mas o que eu posso dizer é que se nós hoje transportamos de 550 mil passageiros/dia, 100 mil são oriundos da integração, seja das linhas que nós operamos, seja da Supervia, seja das 13 linhas que eu já citei. Então, perto dos 20% das pessoas que viajam entrando no sistema através de algum tipo de integração, isso é uma coisa que antes de 2002 não existia.
“É uma questão de definição de política e uma questão de organização da região metropolitana. A integração não é circunstancial”.
CBTU – A Cidade nos Trilhos: Quais são as perspectivas para o transporte sobre trilhos no país? Como é que você vê isso?
Joubert Fortes: As nossas cidades têm uma deturpação. No mundo, as cidades grandes como as nossas têm, também, sistemas de transporte público grandes. Isso acontece em Paris, Nova York, nas cidades da Ásia, ou em qualquer lugar que se pensar. Certamente, as cidades cresceram junto com esses sistemas. Tem sistemas que têm mais de 150 anos. Os nossos aqui não são tão antigos. Então, acaba que a gente tem que construir sistemas metroferroviários nas cidades existentes. Mas hoje há consciência de que primeiro o transporte metroferroviário é, realmente, um transporte de massa. O ônibus não é transporte de massa, é um transporte coletivo. O investimento em transporte de massa é alto, mas ecologicamente correto. Tudo isso tem que ser levado em conta. Existe essa consciência hoje, apesar de estarmos atrasados. Hoje, tem sistemas relativamente bons em seis cidades do Brasil: São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife, Belo Horizonte e Brasília. Há possibilidade de crescimento em Belo Horizonte, Recife, Salvador e Fortaleza. Tem investimentos nesses quatro lugares. O governo de São Paulo está investindo pesado e nós aqui, que somos operadores privados, estamos negociando com o Estado para que passemos também a investir na expansão do sistema. Se pensarmos assim, estamos com oito sistemas no Brasil com investimentos. É lógico que estão faltando investimentos, mas há alguns anos nenhum deles estavam investindo ou investindo a quantia mínima perto da necessidade. Acho que hoje se tem uma consciência e cada estado, cada região estão descobrindo à sua maneira ou apoiados pelo governo federal ou pelo governo estadual ou até pela iniciativa privada, como é aqui no Rio.
CBTU – A Cidade nos Trilhos: Como é que vocês vêem a Copa de 2014? Existe algum planejamento?
Joubert Fortes: Nós operamos no Pan, principalmente na abertura dos jogos que aconteceu no Maracanã, cerca de 126/128 mil pessoas/hora, que é um número considerável. O investimento que planejamos fazer em três anos irá dobrar a capacidade até 2010. Estamos com a possibilidade de deslocar 50 mil pessoas/hora numa estação como a Maracanã. Com o atual tamanho do estádio que hoje não cabe mais 200 mil pessoas e com toda a regulamentação da FIFA, será um estádio menor, ou seja, em torno de 70 mil pessoas. Essa capacidade é suficiente para escoar todos, até porque também tem a Supervia. Esse investimento que estamos fazendo não é por causa da Copa, mas atende perfeitamente as necessidades, inclusive já mostramos isto para a CBF – Confederação Brasileira de Futebol.
P.S.: Entrevista feita pela jornalista da CBTU Eucládia Marques. Cabeça, título e revisão feitos por mim.
Entrevistas na CBTU | Comments (0)Entrevista com Chico Alencar
Em entrevista realizada pela CBTU, o deputado federal Chico Alencar fala sobre os transportes metroferroviários.
Além dos cargos políticos de vereador, deputado estadual e deputado federal pelo PT do Rio de Janeiro, exercidos ao longo de 17 anos, o deputado federal (PSOL/RJ) Chico Alencar é historiador, professor, autor e co-autor de inúmeros livros didáticos e infanto-juvenis. Fundou e presidiu a Associação de Moradores da Praça Saens Peña (AMOAPRA), foi diretor e presidente da Federação das Associações de Moradores do Estado do Rio de Janeiro (FAMERJ). Presidiu, também, a Comissão de Educação e Cultura da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Atualmente, é membro do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados.
CBTU – A Cidade nos Trilhos: Quais os desafios do transporte urbano nas grandes cidades, nos próximos anos?
Chico Alencar: O grande desafio, que já é desse ano, da hora e do futuro imediato é começar a alterar a carrocracia, a idéia e o mito do transporte individual e avançar não para o transporte coletivo, mas para o transporte de massa. Sem isso, as nossas grandes cidades vão virar um caos e as cidades médias caminharão para isso também. Fora o transporte de massa por via fluvial, aquaviário ou onde couber ou ferroviário, onde a decisão política for tomada, ou nós não sairemos de um grande engarrafamento, um grande gargalo que impossibilita a vida nas grandes cidades. Eu tenho convicção absoluta disso.
“Porque a cidade não se move só pelos diagnósticos e pelas generosas conclusões voltadas para o interesse coletivo, público. Ela se move também por interesses econômicos, pela força de determinados grupos sociais”.
CBTU – A Cidade nos Trilhos: O que falta para que o transporte metroferroviário aconteça?
Chico Alencar: O diagnóstico é fácil. Uma pessoa com o mínimo de racionalidade vai entender que só o transporte de massas resolve o problema da circulação das pessoas nos centros urbanos.
“Isso contraria interesses e, agora, não só da indústria automobilística e do carro individual, mas também, das empresas de ônibus muito poderosas, que elegem vários vereadores e governantes, aí os governos têm que entrar inclusive eventualmente junto e onde couber com a iniciativa privada nessa perspectiva do transporte de massa”.
CBTU – A Cidade nos Trilhos: E por que não se viabiliza?
Chico Alencar: Porque a cidade não se move só pelos diagnósticos e pelas generosas conclusões voltadas para o interesse coletivo, público. Ela se move também por interesses econômicos, pela força de determinados grupos sociais. Aí é uma questão de mover o desenvolvimento e, eu na minha vida que não é tão curta assim, mas não é centenária, vivi no meu Rio de Janeiro como capital da república a força dos transportes e dos trens. Eu sou do tempo da Central, da Leopoldina, que transportava a população que trabalhava no centro do Rio de forma maciça. Eu sou testemunha da decadência, a partir do momento em que a idéia do desenvolvimento no Brasil, do desenvolvimento nos anos JK, sustentada na indústria automobilística e essa crise também foi acontecendo e depois de muito sofrimento se percebeu a inviabilidade dessa opção exclusiva, que foi destruindo as nossas ferrovias pelo Brasil inteiro, o que é uma lástima. Tem é que modernizá-las, ampliá-las como em muitos países da Europa fizeram exemplarmente. Bastava nós que somos, em geral, macacos de imitação desses modelos copiar, mas não. A premência da indústria automobilística acabou criando essa situação, que não é exclusiva do Brasil, mas aqui é particularmente forte. Então, é hora de reorientar esses modelos. O metrô é uma tentativa de começar a criar uma alternativa viável, mas ela ficou muito tímida, muito insuficiente; de novo no meu Rio de Janeiro. O metrô ainda é ridículo para transportar a população. Eu creio que agora chegou o momento, em pleno século XXI, um novo paradigma de desenvolvimento para sobrevivência humana, a famosa decisão política. Isso contraria interesses e, agora, não só da indústria automobilística e do carro individual, mas também, das empresas de ônibus muito poderosas, que elegem vários vereadores e governantes, aí os governos têm que entrar inclusive eventualmente junto e onde couber com a iniciativa privada nessa perspectiva do transporte de massa.
“Então, com seriedade, com projetos, com parceria entre entes da federação sob a liderança do governo federal, a gente tem que ter um programa de transporte de massa para o Brasil sobre trilhos, metroferroviário”.
CBTU – A Cidade nos Trilhos: O transporte de massa seria a solução para mobilidade urbana?
Chico Alencar: Eu não tenho dúvida. Esse é o caminho. Se quiser transporte solidário no automóvel é até bonito, mas não resolve. Nós temos inclusive aqui em Brasília, a situação também está ficando inviável. Como é uma cidade concebida na era JK, com as grandes avenidas do arquiteto, socialista e urbanista Lúcio Costa, eles pensavam Brasília como uma exceção. O metrô de Brasília está ainda no começo.
CBTU – A Cidade nos Trilhos: Em relação ao investimento no transporte sobre trilhos, qual é o papel do governo federal?
Chico Alencar: É um papel decisivo, imprescindível. Agora o governo concentra todo o seu esforço de investimento no chamado PAC. A gente tinha que ter um capítulo especialíssimo dentro da visão de aceleração do crescimento que aliás, não é uma boa expressão. Temos que pensar no desenvolvimento que é um conceito mais abrangente no transporte de massa das regiões metropolitanas do Brasil. Não estou nem falando ainda na recuperação da ligação sobre trilhos das grandes metrópoles, como por exemplo, a decadência da ligação Rio e São Paulo por trem, como eu já viajei muitas vezes na minha infância. Ela agora está mostrando todos os seus efeitos terríveis, com os acidentes e crises aéreas e aí a gente volta a lembrar do trem-bala. Sempre começamos com uma visão megalomaníaca, depois baixa a bola um pouquinho, mas o pior é que vai do projeto fantástico, o melhor do mundo, o mais avançado nem se compara com o TGV lá da França e cai para o nada. Então, com seriedade, com projetos, com parceria entre entes da federação sob a liderança do governo federal, a gente tem que ter um programa de transporte de massa para o Brasil sobre trilhos, metroferroviário.
P.S.: Entrevista feita pela jornalista da CBTU Eucládia Marques. Cabeça, título e revisão feitos por mim.
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